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Dança?


[ Nocturnal Skating - Rob Gonsalves ]

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"Quem me acompanha
numa suave dança, noite a fora?
mar a dentro?
entre nuvens
...e nuvens se escondendo?

Eu preciso de uma bola, um sorriso, uma voz
e toque de leve nas mãos
para esquecer que meus pés
não conseguem sair do chão.

Ilumina-me bola.
Lá do alto, me inunda de paz
e cada vez mais
ilumina(-me)."


.:.*.:. [ Tania Samara Lemos ] .:.*.:.


;D

E chega o dia das transformações...


...As fadas são que nem as borboletas.
Se rastejam até o dia em que decidem mudar.
E ao invés de pôr-se em pé, voam.

A diferença é que os seus rastejos são mentais
sob as dúvidas que atormentam seus corações,
enquanto as borboletas, ainda lagartas, sujam-se de terra.

A outra diferença é que os vôos das borboletas duram em média dois meses.
As fadas são eternas, encantadas e iluminadas...

...embora alguns ainda acreditem que elas não passam de uma lenda.

Ao ter contato com uma delas,
você pode até enganar-se ao observá-la,
acreditando cegamente que o seu bem servir
dá-se ao desejo dela de obter mais e mais luz.

Mas vai surpreender-te, os olhos teus,
quando ao longe enxergar as mãos daquela fada
a pôr estrelas no teu céu de marfim,
tentando dar mais e mais luz à tua vida de carmim,
quando só imaginas que ela vai roubar as poucas estrelas que te restam,
e rir-se do teu sangue, a jorrar por aí.

Conheces mesmo tuas amigas fadas?
Então não temas o que suas mãos decidirem fazer...


"Mudar é desadaptar-se, é atualizar-se, é evoluir" .
[Lourdes Possa]

Amavisse


Como se te perdesse, assim te quero.

Como se não te visse (favas douradas

Sob um amarelo) assim te apreendo brusco

Inamovível, e te respiro inteiro


Um arco-íris de ar em águas profundas.


Como se tudo o mais me permitisses,

A mim me fotografo nuns portões de ferro

Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima

No dissoluto de toda despedida.


Como se te perdesse nos trens, nas estações

Ou contornando um círculo de águas

Removente ave, assim te somo a mim:

De redes e de anseios inundada.


[ Amavisse - Hilda Hilst ]

Recordar é viver - [Parte III]





São quatro na lista. Joey, Alen e Toshio. Estes foram os rapazes que chegaram ao posto de envolvimento maior com ela. O quarto é Eru, o único que ainda ocupa boa parte de seus pensamentos.




Os outros ela conheceu por um acaso, e também por um acaso se desencantou. O primeiro era da mesma faculdade, tinha olhos negros como a noite, e o rosto pálido como a lua. Seus cabelos longos, e as roupas pretas mostravam o bom metaleiro que era. Junto à isso, era culto, fino, e elegante. Agia com muita seriedade na maior parte do tempo, mas se derretia em risos ao vê-la dançar seus rocks como uma criança pulando ao som da Xuxa.
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Passaram pouco mais de seis meses juntos, na dúvida de não saber o que queriam, embora compartilhassem a certeza de amar o vinho. Foram infelizes em algumas colocações - faziam planos de ir embora, um para cada canto do mundo - e foram se distanciando aos poucos, embora tivessem quase tudo para dar certo, mesmo que ele fosse um pouco mais baixo, um ano mais novo e sério demais para andar com os amigos dela.


O segundo, fisicamente era sete anos mais velho que Llethiel, mentalmente era sete anos mais novo. Adorava sair com os amigos, pular no meio da rua, às 2hs da madrugada, cantando "It's Oh so Quiet" de Björk, enquanto ela ria. Sem contar que implorava até conseguir fazê-la ir com ele na montanha russa por mais de duas vezes, no Parque ao lado do Shopping. Insistente demais, mas era um bom rapaz.



Passaram dois meses saindo e se divertindo. Não falavam coisas muito sérias, nem muito bobas, mas mesclavam tudo a maior parte do tempo, embora não tocassem no assunto "relacionamento mais firme" - e ela adorava isso.



O último é quase um fetiche. Um mocinho que um dia ela viu passar, achou um charme, e ficou a observar. Ele, muito recatado, talvez nem tenha percebido a intenção dela em aproximar-se dele quando estavam entre amigos e ela disparou um - "oi, tudo bem?" - já estendendo a mão para cumprimentá-lo. Conversaram durante horas, e se encontravam casualmente em festinhas e outras folias. Os dois pareciam se dar muito bem, embora fossem apenas conhecidos.



Toshio e Tarallethiel se aproximaram mais ainda em uma destas festinhas. Ele a agarrou pela cintura enquanto ela dançava, deixou os olhos dela bem alinhados aos seus e fitou-lhe até a canção terminar. Os dois dançaram colados o resto da noite. Mas não trocaram carícias, exceto aquelas que a criatividade no olhar permitia.



Ela gostou.
Voltou para casa pensando no quanto seria interessante se os dois um dia estivessem juntos. Mesmo que só por um dia. Aqueles olhos puxados fitando-a por longo tempo sem dúvida deixou uma coisa interessante: o desejo. E o beijo que não foi dado o alimentou.



Numa noite qualquer, já passava das onze, quando o celular tocou, e ela viu o nome Toshio na bina. O mundo todo parou enquanto ela se movia entre os lençóis para atender:



- Oi
- Oi Llê. Como vai?
- Bem... a maior parte do tempo. E você?
- intrigado comigo mesmo...
- ué...porquê?
- hummm...você está muito ocupada?
- não.
- Posso entrar?
- ...



O telefone ficou mudo por alguns segundos. E ela correu para abrir a porta. Toshio, ainda com o celular na orelha, virou-se devagar a esperar por ela, que encostada no vão da porta, o cumprimentou com o sorriso mais doce.



Ele desligou o celular, chegou perto dela e deu-lhe um beijo de novela. Devagar e compassado, tocando seus cabelos de leve e abraçando seu corpo enquanto mentalmente ela dizia "vá...me leve". E foi assim que começou o que hoje terminou com uma ligação.



Mas ela está bem.
Muito bem. Obrigada!
Essas desilusões causaram tanta dor na primeira vez que agora já nem espanta tanto.
Não... ela não é uma menina de ferro, muito menos a senhora de toda a experiência. Mas Llethiel sabe separar bem as coisas, e convive bem com isso. Eles é que não.



"All these accidents that happen...follow the dot
Coincidence makes sense, only with you
You don't have to speak - i feel."


[Jóga - Björk]



Derrepente um barulho infernal de carro freando estraga a linda voz de Björk, e ouve-se uma voz conhecida - _Taaaaaara! - era Joey, o metaleiro que gostava de vê-la dançar.



_Joey? Você por aqui?
_Ah! eu que o diga! Estais perdida minha dama? - ele diz, curvando-se e beijando a mão dela.
_Hahaha! - ela solta uma gargalhada - Era divertido para ela vê-lo agir como aqueles moços de filmes bem antigos.
_Nada...estou só passeando. Para não perder o costume - quando namoraram, os dois costumavam caminhar pela cidade sem rumo certo, isto fazia bem aos dois.
_Vamos passear juntos então? - ela pensa um pouco, e acaba aceitando.
_O que está tocando aí? Me dá um fone... - e caminham lado a lado, ouvindo Jóga*.



"...State of emergency : how beautiful to be
State of emergency : is where i want to be..."




Entram em um parque e desaparecem nas trilhas.
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* Jóga : Música do álbum Homogenic (1997), da cantora islandesa Björk.

Uma aventura? - [parte II]


Seria mesmo isto o "tudo" que ela procura
depois de tantos "sentimentos de montanha russa"?

Uma aventura sim!
Nada muito sério, e tampouco desleixado demais ao ponto de não se ouvir tanta empolgação com a notícia de sua chegada. Afinal, o que mais poderia querer, se ela agora estava livre para voar e alcançar alturas jamais vistas?
...e ela bem que estava muito afim de se jogar... pelo menos até a ligação cair.
Mas apenas pisca os olhos lentamente, e segue.

Os carros passam, alguns buzinam, e ela continua sua andança meio autista - perdida no seu mundo musical - e simplista, que alguns preferem chamar de "mundinho egoísta".

Ela não gosta de pensar muito no que virá depois de amanhã, mas sempre pensa nas coisas que poderão acontecer amanhã. Dá pra entender? Não é?
...eu sabia. Poucos entendem.
Mas resumindo em versos: a proximidade é tudo.

Llethiel faz parte daquele tipinho bem familiar de moças bem resolvidas, que os homens teimam em tratar como se fossem "adolescentes de coração mole". E quando não fogem de cara, ele se assustam na cama. Até porque, ela tem umas manias peculiares de estalar o pescoço, ou esticar a coluna levantando bem os dois pés, deixando só a cabeça e os ombros no chão. Isto para eles é contorcionismo demais para algo tão simples.

Alguns tropeçam em seus "Pensamentos Calvinianos" e imaginam até que aquilo que se vê é somente pra impressioná-los. Quando na verdade, Llethiel é tão ligada a si mesma e ao seu próprio bem estar que nem passa pela sua cabecinha a idéia de enfeitar-se para algum deles.

Assim como muitas, ela sempre acredita que os homens vão enxergar nela justamente aquilo que realmente é, e não como uma atriz fazendo um teatrinho pessoal para agradar o público; ou como uma menina boba que se faz de interessada e ri de tudo para não parecer ignorante.

tsc tsc...
¬¬
homens...
Eles nunca percebem que ela só observa.

Só um deles não agiu assim. E a este, Tarallethiel ainda pertence...
...mesmo sabendo que não pode mais atribuir-se.

Erunestian - ou apenas Eru (pronuncia-se Air-oo) como ela chamava - tinha um nome angelical, que significava a cura dos Deuses. Eru fora embora para a luz pouco tempo depois de se encontrarem pela última vez em uma cidade não muito distante daquela... caótica.

Mas foram felizes. Se amaram um dia inteiro permeando os dois pólos - o da doçura, quando distribuiam carinhos ao tocar o nariz no rosto do outro entre um sorvete e um beijo; e o da loucura quando rasgaram um lençol com seus dentes afiados e desafiadores de quem pergunta insistentemente se ainda quer mais - Mas foi somente um dia.

Às vezes ele aparece para ela em sonhos, e faz tudo acontecer denovo. Ela acorda sentindo o gosto de sorvete, os lençóis rasgados, e as mãos suspensas no ar, tentando agarrar o que já não tem mais.
Seu já pai anda reclamando sobre a falta que os lençóis fazem em casa.

O que mais intriga esta menina-moça de passos sutis, é esta forma maluca de Eru "não deixá-la esquecê-lo". Será ele mesmo? Ou o subconsciente perverso a lhe atrapalhar os planos de saltar das alturas?

Sobre isto, ela prefere nem pensar mais. Apenas olha algumas fotos, toca cada uma delas - como se tocasse-lhe o rosto macio - e pede à Deus proteção para aquele que se tornou o anjo de sua vida.

Ao caminhar sobre os quadros, e desistir das novas/velhas esperanças, ela lembra o tal sonho e troca a música. Seus passos largos na rua não tem uma direção certa, mas a música que ela cantarola sozinha com seu disk-man, é para ele...
...

What a time this is
Que tempo é esse
Everything changing
tudo está mudando
Faster than the eye can blink
mais rápidos que as piscadas dos olhos
Faster than we can stop & think
mais rápido do que nós podemos parar e pensar
What will the future hold?
o que será do futuro?
Well, whatever...
bem, independentemente...

I won't ask you to care
eu não vou pedir para vc cuidar
But say you'll be there
mas digamos, se vc estiver lá
If you can't love me tonight
se vc não puder me amar esta noite
Just remember the light
pelo menos lembre da luz
Remember the light
lembre da luz

Thank you! whoever you are...
Obrigada! Seja vc quem for...
Thank you! whoever you are...
Obrigada! Seja vc quem for...
Thank you!
Obrigada!

If we get half of half a chance
se chegarmos a metade da metade de um acaso
We'll party til dawn. We'll run
Vamos festejar até a madrugada. Vamos correr
And dance
e dançar
Sleep on a train and rent a car
dormir em um trem e alugar um car
We'll gamble in the South of France
Vamos apostar no Sul da França
We'll be a friend to this mad world
Nós seremos um amigo para este mundo louco
Happy together
Felizes juntos
I won't ask you to sign
Eu não vou te pedir para assinar
On some cold dotted line
Em algumas frias linhas pontilhadas
But if you can love me tonight
mas se vc puder me amar esta noite
I'll remember the light
eu vou lembrar da luz
Only the light
somente da luz
Thank you! whoever you are...
Obrigada! Seja vc quem for...
Thank you! whoever you are...
Obrigada! Seja vc quem for...
Thank you!
Obrigada!
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[Thank you whoever you are - Marillion]
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* Thank you whoever you are - do álbum Somewhere Else (2007), da banda inglesa Marillion.

Tarallethiel




Era... era ela! ...era ela!
...no centro da tela naquela manhã.
Tudo o que não era ela
...se desvaneceu

De cabelos presos, olhos fixos no banco à sua frente, sua mente permeava os mais absurdos conectivos que poderiam enfeitar a sua chegada na próxima estação. Sua saia solta já não a preocupava, contrariando o rito diário de esconder as finas canelas, Tarallethiel estava imunda. Não naquele sentido feio por falta de asseio, mas imunda por estar completamente desleixada em relação ao que os outros poderiam pensar sobre seus atos, passos, faltas, desapegos...


Luz... ação!


A porta se abriu e ela pensou mais uma vez antes de sair "...e se estiver frio lá fora?" Saltitou junto aos seus cabelos, levando à mão um casaco para cobrir um pouco a pele, que o frio já fazia arrepiar novamente.



Alguns passos e lá estava ela, feliz por estar em um lugar tão pouco desejado por si mesma. Mas que sempre serviu de refúgio quando sua alma estava cansada de tanta rotina. Nas costas, uma mochila pesada com um pouco de maquiagem, hidratante, uma escova de dente, poucas roupas e seus CDs inseparáveis. Chico Buarque não poderia faltar... ele a faz ninar desde criança. Nas horas mas íngremes de sua vida, a voz que os outros chamam de "um pouco desafinada" traz um sorriso afiado de sua boca, e planta no coração daquela moça uma sementinha que ela costuma chamar de "um amor que não se vive mais".


Llethiel (pronuncia-se lêfiel, dando ênfase na letra "L", como fazem os espanhóis) caminha sobre os quadros tomando o cuidado de pisar sempre dentro deles, enquanto seus dedos se perdem no bolso a procura de uma moeda, ou um pedaço de papel qualquer para pagar a coca cola que tanto fez falta no caminho. Mais alguns passos até o orelhão mais próximo e podemos ouví-la dizer em um tom quase desesperado: "_Amor! Cheguei!".



Sua cabeça vai baixando aos poucos e o êxtase que embriagou-a no início da ligação se esvai. A ligação cai, o fone escorrega suavemente em sua mão. Com o corpo inerte, por alguns segundos ela pensa...e ela recomeça sua andança sobre os quadros.


Nome estranho, porém belo. Tarallethiel - para alguns, apenas Llethiel - é quase élfico, como a magia que ela carrega em seus olhos observadores. Tem um significado zen, e distante da realidade... ou não! Talvez ser detentora de luz a faça suprimir todas as aventuras que poderiam tornar a sua vida cheia de males, revoltas e dores. Embora as dores estejam presentes quase sempre. Inclusive agora, ao engasgar o seu belo sorriso depois de uma ligação.



Ela abre a mochila, se desfaz daquilo que mais uma vez poderia ser amor, e ouve...



"Não me leve a mal, me leve à toa pela última vez
à um quiosque, ao planetário, ao cais do porto, ao passo...
...o meu coração, meu coração, meu coração parece que perde um pedaço,
mas não me leve a sério...
Passou este verão, outros passarão
E eu passo..."





Pensar, dormir, pensar, e fim.


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* Renata Maria - Música do álbum Carioca (2006) de Chico Buarque
* Leve - Música do álbum Carioca (2006) de Chico Buarque
 
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