A idade das memórias

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"Só vemos as coisas da melhor forma
quando estamos prestes à deixá-las.
Daí é como se fosse a primeira vez,
parece que tudo está brilhando"

[Alice - How About You?]


Alice e Helle observando a paisagem do rio


A terceira idade é mesmo algo intrigante. Às vezes você não sabe porque certos velhinhos se entristecem ou ficam extremamente zangados tão rapidamente com algo que você faz ou fala. Tudo o que você fizer a eles (ou para eles) deve seguir um ritual, deve ser bem pensado de acordo com o que eles acreditem que seja uma boa conduta, uma boa maneira, uma boa forma de abordá-los. São como bichinhos indefesos que precisam de um motivo para confiar em você primeiro, para depois deixá-lo invadir sua privacidade tão particularmente resguardada.


Meus três avós estão vivos (duas vovós e um vovô), e costumo dizer que sou abençoada por isto. Nem todo mundo tem essa glória de conviver com os valores dos avós e ouvir ditos populares do tempo deles como "homem é assim, vc dá a mão, e eles querem o pé" (oaheoeuhaoeuae!). "Eu vou me zangar? Pra quê minha filha? No cantar do sabiá eu tô na cozinha fazendo o chocolate dele, que chega, me dá bom dia, e a gente dança denovo". Estas são palavras um tanto sábias da minha avó Iracema, que tem muita culpa em relação a minha maneira de ver o mundo.


Vovó Iracema Lemos no seu aniversário de 83 anos


Fui criada pelos meus avós, praticamente. Meu pai é músico, tocava a noite inteira e precisava dormir durante o dia. Minha mãe era professora, trabalhava o dia inteiro e só nos via a noite. Meu irmão e eu vivíamos passando o dia na casa de um e de outro, dos três vovozinhos. A vó Iracema fazia bolos, comidinhas coloridas (batidinho com quiabo e abóbora), contava histórias de sua juventude, quando fugia de casa pra dançar com o vovô e eu adorava ouvir tudo isso pra zuar depois.


Meu avô Nonato, vai ter pra sempre a alma de boêmio. Ainda hoje toma um punhadinho de vinho "porque faz bem para o coração" (haoehaouhaeh!). Ele trabalhava como técnico em eletrônica, sua casa era cheia de televisores velhos, rádios em formatos estranhos, cheios de curva, botões enormes... E também tinha muita música e muito pó. Vovô ainda hoje faz mágica com o seu pó do pirimpimpim.


Vovô Nonato brindando o aniversário da Vovó


Os dois criaram o hábito de acordar cedo (religiosamente às 4hs da manhã), tomam seus banhos (cada um em seu banheiro), ele arruma a cama e depois senta à mesa, enquanto ela prepara o café da manhã. Eles tomam o café assistindo tv, depois ligam o som. Geralmente num samba ou chorinho das dezenas de cd's e lp's que ele tem na sala. E os dois dançam... Dançam e falam do "antigamente" com um sorriso na face. Hoje cedo cheguei lá e eles estavam dançando e sorrindo. Os olhos da minha avó brilhavam, e ele (que quase nem caminha porque os pés estão sempre inchados) sorria da própria dificuldade que sentia em dançar como antigamente.


Minha outra avó, Ozita (aquela dos leques), era meio que o oposto disso. Apesar de ser mãe do músico, ela não ouvia música em sua casa (exceto nos dias de festa). Assim que se aposentou, minha avó vivia cuidando da sua casa imensa, recebendo visita de parentes que moram longe e sempre buscavam o apoio dela em alguma coisa (nem que fosse pra brigar), e vivia como se fosse a Chefia-Mor da família, aquela que a todos aconselhava. Ninguém dava um passo sem o consentimento dela.


Vovó Ozita e seus leques


Os dias na casa dela eram de desenhos na frente da tv, de comidinhas maravilhosas (paçoca feita com carne de sol e rodelinhas de banana, pudim de leite), mas também muita ordem. Ela me ensinou a datilografia, e eu digitava textos enquanto ouvia suas frases bem diretas "treine para ser mais rápida". Poderíamos brincar sim, mas nada de sujeira, bola ou brinquedos que pudessem quebrar ou danificar suas coisas. Os jogos eram de raciocínio (stop, adedonha, dominó, banco imobiliário). Filmes eram muito bem vindos, desde que houvesse uma lição de honra.


Vovó perdeu o esposo cedo, com cinco filhos para criar. Passou fome, estudou com a ajuda de amigos que a ensinavam tudo, e conseguiu um emprego digno, que a fez crescer ao ponto de praticamente sustentar a família inteira e mais um pouquinho. Quando a aposentadoria chegou, os problemas também vieram e ela começou a se preparar para o pior. Fez isso com o apoio dos filhos. E apesar de muitas vezes parecer amargurada, zangada ou fria como um general, ela era amável e doce. Seus beijos e abraços estavam sempre presentes, assim como as explicações para o "vc não deve fazer isto porque...".


Em 2002 ela teve um derrame, uma esquemia cerebral. De lá pra cá, quem sempre cuidou da vida de todos, teve que se acostumar a vivenciar o outro lado da moeda. Agora é ela quem recebe todos os cuidados do mundo, e não vive sem estes. Ela não anda, tem dificuldades de fala, mas tem lucidez e um senso de humor fantástico. Lembra de tudo, se esforça e consegue se expressar quase sempre. Teve que deixar sua imensa casa de lado para morar em minha pequena casa. Sorri e me beija quando eu pulo na cama dela, dou bom dia e digo "minha benção vó?". Hoje ela sorri por mais tempo, e aproveita mais a companhia das pessoas observando-as calmamente em seu cantinho.


Vovó Lilás e Vovô Noel brincando no último natal


Até quando vou ter essa benção do convívio com eles, eu não sei. Mas eu sempre tive a certeza de querer aproveitar todo o tempo que me resta. Às vezes eles são intolerantes com eles mesmos, às vezes se entristecem e se zangam com alguma coisa aparentemente boba, e eu dou o tempo que eles precisam para processar mentalmente o ocorrido. Mas depois eu volto em busca do meu sorriso querido... E eles me dão.


E tudo brilha...


Helle e os quatro idosos do filme


Há alguns dias assisti ao filme De bem com a vida, cujo título original é How About You?, e me deu vontade de compartilhar aqui algo que pudesse expressar a minha relação de gratidão com os meus avós, e pedir a todos que assistam. Porque o que se vê por aí são pessoas maltratando seus velhinhos sem pensar no que eles devem ter vivido. Algumas pessoas simplesmente não respeitam suas decisões absurdas e seus desejos mais íntimos de quietude e recolhimento. Elas tentam arrancá-los de suas tristezas como fazem com qualquer outra pessoa.


Mas eles não são como uma pessoa qualquer. São de outra época, vêem de outros costumes e demonstrações de afeto, da época em que o perguntar "se vc quer passear comigo", era bem mais gentil que simplesmente sequestrá-los para uma tarde em algum lugar diferente. Corremos demais, e não podemos exigir que eles nos acompanhem. Porém...temos um jeito de fazer isso.

Helle atendendo ao pedido de Alice: "mais rápido!"


O filme fala de uma moça chamada Helle, que vai passar uns dias no Azilo que sua irmã construiu depois da morte do marido. As coisas não vão muito bem por conta de quatro velhinhos ranzinzas, que espantam todos os outros clientes com suas reclamações e desaforos. Mas basta uma boa dose de verdade, mesclada a carinho, atenção e "ocupação" para que eles despertem coisas melhores dentro de si, e mostrem um lado que até então era desconhecido.


A maioria das fotos são do filme, que vale a pena ver. Porque as vezes nós, ditos jovens, agimos como se fôssemos mais rabugentos que os velhinhos os quais convivemos, e é sempre bom um tapa na cara com um pedido de "ei! aproveita a vida!". Por estas e outras, fica aqui o meu pedido:


Sejamos para sempre jovens.


Geórgia Summers brincando com bolas de neve



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